Veritas Grossmutter 1947, o primeiro carro alemão de competição do pós-guerra
A Veritas foi uma empresa alemã de carros esportivos e de competição surgida logo após a Segunda Guerra Mundial. Foi fundada por Ernst Loof, Georg Meier e Lorenz Dietrich, que inicialmente reconstruíam carros BMW 328 pré-guerra, usando componentes fornecidos pelos proprietários, transformando-os em modelos chamados de BMW-Veritas. O primeiro carro foi usado em 1947 por Karl Kling para vencer em Hockenheim e, posteriormente, tornou-se campeão alemão de motores 2 litros em 1947. Após a produção de apenas alguns carros e uma série de reclamações da BMW, os carros passaram a ser conhecidos simplesmente como Veritas.
por Ricardo Caruso

A história da marca começa após a tomada da região alemã de Sigmaringen pelas forças da França em abril de 1945, quando a área passou a ser controlada pelos franceses. Mais tarde, naquele mesmo ano, o ex-chefe do departamento de corridas da BMW, Ernst Loof, junto com a lenda do motociclismo Georg Meier e Lorenz Dietrich —que fora engenheiro da BMW— construíram seu primeiro carro no pós-guerra. Ele foi montado em torno de um chassi e componentes mecânicos da BMW 328. Dietrich, como ele mesmo lembrou em 1975, ainda tinha fortes laços emocionais com a BMW e tentou batizar sua nova criação como “BMW-Veritas”. No entanto, a marca não gostou nada e isso foi impedido, pois o novo representante da BMW na ocupação americana proibiu o uso do nome da fabricante. A parte “BMW” do nome proposto foi abandonada, surgindo assim a empresa de carros esportivos Veritas.

Sem nome na época de sua montagem, o carro quase foi confiscado pelos militares americanos. Para evitar problemas, utilizou o número de chassi “85335”, que era de um BMW 328 que cedeu componentes, e foi o primeiro Veritas a ser construído. Em 1950, ganhou o nome de Grossmutter, que significa avó em alemão. Era equipado com um motor BMW 328 de 2,0 litros preparado —com cabeçote projetado por Loof— que tinha dois eixos de comando de válvulas, o que significava que o carro tinha três comandos, incluindo o do bloco do motor, e gerava, segundo relatos, 140 cv de potência. A carroceria era construída em alumínio francês —fornecido pela Dietrich— e mais tarde esse carro ficou conhecido como Veritas RS.

Embora carros produzidos na Alemanha não pudessem competir em corridas francesas, o Grossmutter havia sido construído na parte da Alemanha controlada pela França, com financiamento e materiais franceses. O piloto francês Eugène Chaboud visitou as oficinas de Loof em junho de 1947 e ficou impressionado com o Grossmutter após alguns testes. Loof ofereceu-lhe um passeio pela oficina, acreditando que as autoridades francesas ficariam satisfeitas em ver um piloto francês ao volante de sua criação. No entanto, quando Chaboud chegou com o carro no GP da Alsácia, o diretor de corrida francês percebeu que o público não podia ser enganado e, após algumas voltas, ele deu a ordem de remover o Grossmutter, e assim a equipe foi escoltados para fora do circuito pela polícia. Chaboud continuou na corrida com seu Delahaye 135 S.

Disfarçado como carro de testes da Veritas após o GP da Alsácia, Georg Meier começou a correr com o Veritas na Alemanha em 1948, na Fórmula 2. Chaboud retornou a Reims naquele ano e terminou em segundo lugar em uma corrida no circuito francês. Para isso, o carro foi inscrito sob o nome de Meteor, uma empresa francesa que mascarava sua identidade de veículo alemão. Meier acabou vencendo o Campeonato Alemão de Fórmula 2 em 1948, tendo pontuado em cinco corridas.

Em 1949, Meier continuou a correr com o Grossmutter, mas era mais lento que Karl Kling e não estava satisfeito com o carro. Loof conversou com o piloto Toni Ulmen e, após a última corrida de Meier como piloto de fábrica em Nuremberg, Ulmen adquiriu o carro. Ulmen contou anos depois que primeiro pediu a Loof que modificasse seu BMW 328 pessoal para transformá-lo em um Veritas RS e que, em 1949, fechou um acordo com Ernst Loof e adquiriu o Grossmutter em troca de um torno.


Correndo pela primeira vez no “Eifelrennen Nürburgring” e na primeira “Riemer Flugplatzrennen” com o Grossmutter, Ulmen conquistou o segundo lugar no Campeonato Alemão de Carros Esportivos de 2 litros de 1949. Ele correu sete vezes naquela temporada, vencendo duas e ficando em segundo lugar três vezes.


Em sua entrevista, Ulmen mencionou que, para 1950, acreditava que um monoposto seria mais eficiente do que a carroceria “de rua”. Um projeto de sua autoria reduziu o peso em 50 quilos, e ele contratou a Karosseriewerke Joseph Hebmüller Söhne para fabricar a nova carroceria. Fotos do trabalho de Ulmen podem ser vistas ainda hoje. Participando de sete corridas conhecidas da Fórmula 2 alemã, Ulmen marcou 13 pontos e se tornou campeão local de Fórmula 2 em 1950.

Para a temporada de 1951, Ulmen optou por mais modificações na carroceria e transformou o Grossmutter em um modelo de corrida de dois lugares e rodas expostas (como o carro está configurado até hoje). Naquele ano, Ulmen correria com o Grossmutter, mas também com seu Veritas RS, no Campeonato Alemão de Carros Esportivos de 2.0 litros, do qual se tornou campeão em 1951. Ele usou o Grossmutter para competir em cinco eventos.

Em 1952, os requisitos para corridas de carros esportivos mudaram, e Ulmen teve os para-lamas do carro abolidos, itens que foram usadas apenas em algumas corridas. Após seu acidente em 1952, no “Sachsenringrennen”, durante os testes quando foi arremessado para fora do carro. Ulmen se recuperou e decidiu, após a última corrida da temporada (com outro carro), aposentar-se em definitivo. Ele encerrou sua carreira com o segundo lugar no Campeonato Alemão de Carros Esportivos de 2.0 litros em 1952.

Ele vendeu o carro destruído no acidente para o dono da equipe alemã, Hans Klenk, que reconstruiu o modelo de acordo com a configuração de roda exposta e dois lugares da Ulmen, e o vendeu para seu piloto de equipe, Hans Herrmann. Há uma cópia arquivada com os aficcionados da marca de uma fatura de 1953, de Klenk para Herrmann, pela preparação do Grossmutter e entrega em Nürburgring. Hermann correu com o carro duas vezes, alcançando um quarto lugar na “IX Internationales AvD Avusrennen”. Klenk teria vendido depois este Veritas para um dentista alemão, o que Ulmen relatou em uma entrevista de 1975, onde disse que este dentista ainda tinha o Grossmutter.

Em 1983, Gehard Ulmer, um entusiasta da Veritas, descobriu o Grossmutter abandonado em uma propriedade rural alemã, provavelmente do dentista que o havia comprado cerca de 30 anos antes. Apesar de não ter motor, Ulmer comprou este importante carro de corrida e iniciou a restauração. Concluída em 1986, ele levou o carro para um encontro da carros da Veritas em 1987, em frente ao antigo moinho de farinha em Hausen am Andelsbach, onde Loof, Meier e Lorenz haviam construído o Grossmutter 40 anos antes.

Norbert Nowak foi o próximo proprietário do carro, obtendo uma certificação FIVA (federação Internacional de Veículos Antigos) em 1988. Acredita-se que, após adquirir outros Veritas, Dieter Aumann tenha comprado o Grossmutter, realizando algumas pequenas alterações na dianteira no início da década de 1990. Aumann passou mais de 20 anos pesquisando a história do Grossmutter, e o seu carro vem acompanhado de impressionante arquivo histórico detalhando todas as suas descobertas. Há inúmeras fotografias de época arquivadas e os interessados são incentivados a apreciar essas imagens fantásticas.

O Grossmutter foi o primeiro carro construído pela Veritas e é altamente provável que seja o primeiro carro de corrida construído na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. Possui um histórico impressionante, foi pilotado por alguns dos maiores pilotos alemães nos primeiros anos do pós-guerra, e ajudou a garantir três Campeonatos Alemães em 1948, 1950 e 1951.

Apresentado hoje em condições restauradas, o Grossmutter está em sua configuração final de carroceria como um carro esportivo de dois lugares e rodas expostas que Toni Ulmen projetou para a temporada de 1951. Para todos os colecionadores de carros de competição alemães do pós-guerra (sim, eles existem…), o Veritas Grossmutter seria o ponto de destaque de qualquer coleção e é altamente cobiçado para eventos de corrida históricos.
Após o desaparecimento do mundo do automobilismo e da engenharia automotiva, uma pequena empresa alemã conhecida como VerMot planejou reviver o nome Veritas. Ela produziu um conceito conhecido como Veritas RS III em 2001, inicialmente usando um motor 6.0V12 BMW de 670 cv.

Nos anos seguintes, modelos de pré-produção do RS III foram exibidos em Salões e eventos, e usados para apresentações para a imprensa especializada. O motor foi alterado para uma unidade BMW de 5 litros. Em 2011, a VerMot anunciou que o RS III seria oferecido como híbrido, com um motor elétrico adicional, e que uma versão totalmente elétrica estava em planejamento. Várias datas a partir de 2008 foram anunciadas para o início da produção do RS III, mas isso não ocorreu e, em 2014, a empresa abandonou o projeto.
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No dia 23 de novembro do ano passado, o Veritas Grossmutter foi levado a um leilão da Sotheby’s em Munique, Alemanha, sendo vendido por US$ 370 mil.
