A&T Files

AUTO&TÉCNICA #135 – Londres, outono de 1988…

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A tarde londrina caía sobre a Berkeley Square com a suavidade de um lenço de seda. Dentro do showroom, o denso silêncio permitia ouvir o tic-tac do relógio elétrico do Rolls-Royce ali exibido. Lorde Harrington, com seu impecável terno de lã inglesa e um guarda-chuva que nunca conhecera uma gota d´água, observava o novo Silver Spur com a mesma austeridade com que inspecionava suas propriedades em Sussex.

por Rubens Caruso Junior

À sua frente, Watson, o vendedor, cujo sorriso brilhava tanto quanto as calotas cromadas de um Bentley, deslizava as mãos pelas linhas do veículo. Ele não vendia carros: intermediava a posse de um legado.

“Uma escolha magnífica, Milorde”, murmurou Watson, com a voz aveludada. “O Silver Spur é a personificação da elegância. Mas, se me permite, a excelência não reside apenas no que o mundo vê, mas no que apenas o senhor sente”.

Lorde Harrington ergueu uma sobrancelha, a senha silenciosa para prosseguir. Watson estendeu a mão para o interior do carro, onde tapetes de lã de cordeiro, densos e escuros, aguardavam o toque.

“Imagine, após um longo dia, retirar os sapatos e afundar os pés nestes tapetes de lambswool. É, ouso dizer, como caminhar sobre nuvens. Eles não são apenas acessórios, são o prolongamento do conforto da sua sala de leitura”.

O lorde assentiu discretamente. Watson então apontou para o console central, onde um objeto retangular e imponente repousava: era um telefone Motorola 2000X, o ápice da conectividade moderna.

“O mundo gira rápido, Lorde Harrington. Com este telefone celular o senhor poderá coordenar suas aquisições antes mesmo de cruzar a ponte de Westminster. É o poder da comunicação, com a distinção que só a Rolls-Royce pode oferecer”.

Harrington tocou nos grandes botões do aparelho. A ideia de dar ordens de dentro de sua redoma de couro e nogueira era, de fato, sedutora. Ele olhou para fora, onde o crepúsculo começava a ameaçar o brilho da pintura. Watson, percebendo o olhar, prontamente desferiu o golpe de misericórdia:

—E para que este brilho jamais se apague, temos nossa incomparável cera de carnaúba brasileira. Ela não apenas protege, ela eterniza. Um espelho que repele até mesmo a chuva londrina.

O lorde soltou um suspiro de satisfação contida.
— Muito bem, Watson. Inclua os tapetes, o telefone e, por favor… certifique-se de que a capa protetora com o emblema “RR” esteja no porta-malas. Não pretendo que o pó de Londres desonre esta máquina enquanto eu estiver saboreando um charuto no clube.

Watson curvou-se levemente em reverência, o triunfo discreto de quem sabe que, para certos homens, o luxo não é um excesso, mas a única forma aceitável de existência. Em 1988, o mundo estava mudando rápido, mas dentro de um Rolls-Royce, o tempo ainda pertencia àqueles que podiam comprá-lo —o carro e o tempo.

AUTO&TÉCNICA resgatou de seus arquivos o raríssimo catálogo de acessórios Rolls Royce e Bentley, do final dos anos 1980. É um desses materiais que a memória apaga e, descoberto, leva a uma viagem no tempo. Confira!

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