TESTE: Citroën C3 Aircross 7 Shine Turbo 200 AT
Um SUV pensado para quem realmente precisa de sete lugares: traz aproveitamento de espaço inteligente, motor atual e proposta diferente entre os SUVs compactos.
Durante muitos anos, quem desejava um automóvel com capacidade para sete ocupantes precisava migrar para modelos médios ou grandes, normalmente muito mais caros. A Citroën resolveu desafiar essa lógica ao lançar o C3 Aircross em novembro de 2023, um SUV compacto que não abandonou as dimensões urbanas, com baixo custo de manutenção e proposta voltada para famílias mais numerosas. A versão de sete lugares Aircross 7- teve as vendas oficiais iniciadas no primeiro trimestre de 2024.
por Ricardo Caruso

Na versão Shine, a mais completa da gama abaixo da aventureira XTR (veja aqui), o modelo reúne praticamente tudo o que o consumidor brasileiro espera atualmente na categoria: motor turbo, transmissão automática CVT, central multimídia moderna, bom “pacote” de segurança e interior bastante versátil.

Mais do que simplesmente acrescentar uma terceira fileira de bancos, a engenharia da Stellantis precisou desenvolver um projeto que mantivesse espaço interno aceitável, conforto e boa capacidade de carga quando os bancos extras não estão em uso.

Após vários dias de utilização em ambiente urbano, rodovias e estradas secundárias, ficou evidente que o Aircross 7 Shine possui personalidade própria. Não tenta ser um SUV de características esportivas e nem pretende disputar espaço com utilitários médios. Seu objetivo é oferecer praticidade, economia e muita flexibilidade. E, dentro dessa proposta, entrega resultados bastante convincentes.

Foi-se o tempo em que Citroën era sinônimo de problemas, e sérios. Quando passou para o “guarda-chuva” da Stellantis, tanto ela quanto Peugeot mudaram de patamar, deixaram de lado problemas construtivos, dificuldades de assistência técnica e desvalorização absurda, entre outros. Recomendamos que todos conheçam na prática o quanto esses carros evoluíram.

Visualmente, o Aircross 7 segue a nova identidade mundial da Citroën. A dianteira é marcada pela nova interpretação do tradicional logotipo de dupla seta, integrado aos faróis de LED e dividido por elementos horizontais que ampliam visualmente o veículo. Uma dose de cultura inútil: o emblema da Citroën representa duas engrenagens, conhecidas como duplo chevron. Ele faz referência à primeira patente de sucesso de André Citroën em 1900. Os “V” invertidos simbolizam a precisão, a inovação e o pioneirismo mecânico que marcaram a fundação da marca francesa em 1919.

De volta ao C3 Aircross 7. Suas linhas são retas e limpas, no melhor estilo “quadradinho”. Os para-lamas bem destacados transmitem sensação de robustez, com molduras plásticas que reforçam a aparência aventureira. Na versão Shine, diversos detalhes recebem acabamento escurecido, aumentando a impressão de sofisticação do conjunto.

A traseira é simples, mas funcional. As amplas lanternas horizontais com extenções que invadem as laterais ocupam boa parte da largura visual do carro, enquanto o para-choque elevado melhora os ângulos de saída em pisos irregulares. O conjunto transmite uma sensação interessante de solidez. Sem recorrer a exageros estéticos, o Aircross 7 consegue parecer maior do que realmente é.
Apesar de pertencer ao segmento dos SUVs compactos, suas medidas chamam atenção. O Citroën C3 Aircross 7 mede 4.320 mm de comprimento, 1.796 mm de largura (sem retrovisores) e generosos 2.675 mm de entre-eixos. Sua altura é de 1.678 mm (com as barras de teto) e a altura mínima do solo é de 20 cm. O porta-malas varia de 42 litros (com todos os 7 bancos em uso) a 493 L (com a 3ª fileira removida).


É justamente aí que o projeto se diferencia. Grande parte dos concorrentes utiliza o aumento do comprimento apenas para ampliar o porta-malas. No Citroën, esse espaço extra para passageiros foi empregado para acomodar uma terceira fileira removível de bancos. O resultado? Um veículo extremamente versátil.

Ao entrar no Aircross 7 Shine, percebe-se imediatamente que a Citroën privilegiou afuncionalidade. O painel possui desenho horizontal; os comandos são intuitivos; a posição de dirigir agrada rapidamente; o volante multifuncional apresenta boa empunhadura e conta apenas com ajuste de altura da coluna de direção, não oferecendo ajuste de profundidade e os bancos dianteiros oferecem conforto acima da média do segmento. Mesmo após várias horas de viagem, não provocam fadiga excessiva.

Os materiais utilizados no interior priorizam durabilidade. Embora existam plásticos rígidos em boa parte do painel, os corretos encaixes entre as peças demonstram boa qualidade construtiva. Ruídos internos aparecem apenas em pisos extremamente irregulares.


Como dissemos antes, todos os comandos são bem posicionados e ficam próximos das mãos. O Aircross 7 que avaliamos veio equipado de fábrica com a central multimídia “Citroën Connect Touchscreen” de 10,25 polegadas. Ela possui tela flutuante, acabamento premium e permite espelhamento sem fio para Apple CarPlay e Android Auto. A central multimídia possui tela ampla e boa resolução.
Os menus respondem rapidamente, Android Auto e Apple CarPlay funcionam sem dificuldades e os comandos físicos do ar-condicionado representam um enorme acerto; enquanto muitos fabricantes transferem tudo para a tela, a Citroën manteve botões convencionais, facilitando o uso durante a condução.

É impossível avaliar este Aircross sem dedicar atenção especial à terceira fileira de bancos. Diferente de muitos SUVs maiores, onde os bancos extras parecem improvisados, aqui houve um planejamento cuidadoso. Os assentos são individuais e podem ser removidos completamente com facilidade.
Quando retirados, liberam excelente capacidade para bagagens. Naturalmente, os bancos traseiros destinam-se principalmente a crianças ou adultos de menor estatura em trajetos curtos. Mesmo assim, surpreendem pelo espaço disponível considerando o porte do veículo.
Já a segunda fileira acomoda normalmente três adultos com conforto (oque vai ao centro sempre é sacrificado), mas há bom espaço para pernas, cabeça e ombros. Essa configuração de sete lugares torna o Aircross uma excelente alternativa para famílias numerosas. Acima da segunda fileira de bancos, fixada ao teto, há uma generosa saída de ar condicionado para o espaço traseiro.

Na configuração normal de cinco lugares, o compartimento de bagagens torna-se bastante espaçoso. Ao usar a terceira fileira, naturalmente o espaço para bagagem diminui de maneira significativa. Entretanto, como os bancos podem ser removidos individualmente, o usuário pode adaptar o veículo conforme a necessidade do momento. Essa flexibilidade é um dos maiores diferenciais do modelo. Assim, o porta-malas do C3 Aircross 7 varia de acordo conforme a disposição dos bancos. Ele oferece 493 litros (padrão VDA) com a terceira fileira removida; cerca de 398 litros com os dois bancos extras rebatidos e apenas 42 a 50 litros quando os sete assentos estão em uso
Sob o capô trabalha o moderno motor 1.0 de três cilindros Turbo Flex (T200), pertencente à “família” GSE Turbo da Stellantis. Apesar da cilindrada reduzida, entrega desempenho bastante convincente graças ao turbocompressor de baixa inércia.

Ele tem 130 cv de potência máxima, abastecido com etanol (125 cv com gasolina), a 5.750 rpm, e torque máximo de 20,4 mkgf já a 1.750 rpm Na prática, o motorista sente respostas rápidas logo acima da marcha lenta. Não existe aquele atraso típico (turbo lag) observado em motores turbo mais antigos.
As retomadas surpreendem positivamente e as ultrapassagens são realizadas com segurança. Mesmo carregado com sete passageiros, o desempenho permanece satisfatório. A aceleração de zero a 100 km/h é feita em 9,5 segundos e a velocidade máxima obtida foi de 197 km/h. Em termos de consumo, bons números também: Urbano – 7,8 km/litro (etanol)/11,3 km/l (gasolina), e Rodoviário – 9,4 km/l (E)/12,8 km/l (G). A autonomia pode chegar a 601 km, por conta do tanque de combustível de 47 litros.

O câmbio automático CVT tem sete martchas simuladas e é feito pela Aisin japonesa, modelo K313. Trabalha de forma muito eficiente e, ao contrário de transmissões continuamente variáveis antigas, que mantinham o motor sempre em altas rotações, este conjunto simula as trocas de marchas em acelerações mais intensas.
Na cidade, o funcionamento do câmbio é extremamente suave e silencioso. Em rodovias, privilegia baixas rotações, contribuindo direto para o conforto acústico e para o menor consumo. Um dos segredos da longevidade desse tipo de câmbio -segundo especialistas- é observar a troca do fluido a cada 60.000 km (apesar da marca estabeleer que ele é “vitalício”, ou seja, sem manutenção). E usar obrigatoriamente o fluido exatamente especificado no manual do proprietário e na quantidade correta.

O Aircross 7 é um carro que nasceu claramente pensando no uso urbano. É montado na plataforma modular CMP (Common Modular Platform), a mesma do C3, mas alongada para receber a nova fileira de bancos. A direção elétrica possui assistência progressiva (nas manobras exige pouco esforço e conforme aumenta a velocidade, fica mais pesada) e diâmetro de giro de 10,8 metros (o diâmetro de giro reduzido facilita manobras e estacionamento).
As suspensões foram calibradas com foco no conforto, como todos os carros da marca no Brasil, priorizando a absorção de impactos. Equipada com molas helicoidais, amortecedores pressurizados e batentes hidráulicos (stop hidráulico), a suspensão dianteira é independente tipo McPherson, e a traseira é por eixo de torção. Absorvem muito bem buracos, valetas e lombadas. Mesmo enfrentando vias bastante deterioradas, a cabine permanece confortável. A elevada posição de dirigir amplia a visibilidade.
Esse conjunto transmite grande sensação de segurança ao motorista, e mesmo priorizando o conforto, controla bem os movimentos da carroceria, mesmo quando se abusa um pouco do acelerador. Historicamente, a Citroën sempre desenvolveu suspensões voltadas ao conforto e, no Aircross 7, essa tradição permanece. Poucos concorrentes conseguem entregar nível semelhante de conforto nessa faixa de preço.

Em viagens, o SUV revela essa característica positiva. A estabilidade direcional surpreende, e mesmo sob ventos laterais, mantém boa trajetória. Curvas podem ser enfrentadas com confiança. Naturalmente, não é um carro que possui convicções esportivas, mas também não é essa sua proposta. O importante é que transmite previsibilidade em todas as situações.
Outro ponto positivo do modelo está na eficiência energética. Durante nossa avaliação, o consumo urbano apresentou números bastante competitivos para um SUV de sete lugares. Em rodovias, viajando em velocidades compatíveis com os limites -baixos- das estradas brasileiras (já está na hora de serem revistos), o motor turbo mostrou excelente rendimento, beneficiado pelo câmbio CVT de relações longas. A autonomia em torno de 600 km, como vimos antes, agrada principalmente quem utiliza o veículo para viagens em família.

No quesito segurança, o Aircross 7 Shine oferece um “pacote” consistente. Entre os principais equipamentos encontramos:
- Quatro airbags.
- Controle eletrônico de estabilidade.
- Controle de tração.
- Assistente de partida em rampas.
- Monitoramento da pressão dos pneus.
- Câmera de ré.
- Sensores de estacionamento.
- Estrutura desenvolvida segundo os mais recentes padrões da plataforma.
Embora não disponha de um conjunto completo de assistentes avançados de condução (ADAS), entrega uma boa lista, compatível com sua faixa de mercado.

Já em termos de equipamentos, a versão Shine reúne praticamente tudo que o consumidor procura atualmente. Entre os principais destaques estão:
- Central multimídia de 10, 25 polegadas.
- Painel digital com tela de sete polegadas.
- Android Auto e Apple CarPlay sem fio.
- Ar-condicionado automático e digital.
- Saída de ar condicionado na traseira.
- Chave presencial.
- Partida por botão.
- Rodas de liga leve.
- Faróis em LED.
- Volante multifuncional.
- Câmera de ré.
- Sensores de estacionamento.
É um “pacote” bastante competitivo.
Outro aspecto interessante é a utilização de diversos componentes já conhecidos da linha Stellantis. Isso facilita o abastecimento de peças nas concessionárias e reduz prazos e custos de manutenção ao longo dos anos. O motor Turbo 200 já equipa diversos modelos da Fiat, Peugeot e Citroën, acumulando boa experiência no mercado brasileiro. O câmbio CVT segue a mesma balada.

Embora praticamente não existam rivais diretos com sete lugares nessa faixa de preço, o Aircross acaba disputando compradores com modelos como Chevrolet Spin, Renault Duster, Volkswagen T-Cross, Nissan Kicks, Fiat Pulse e Renault Kardian, entre outros.
Entretanto, nenhum deles combina dimensões compactas, motor turbo moderno e sete lugares ajustáveis exatamente da mesma forma. Isso cria um nicho praticamente exclusivo para o Citroën.
CONCLUSÃO
Custando a partir de R$ 131.790, o Citroën C3 Aircross 7 Shine não pretende ser o SUV mais esportivo e nem o mais sofisticado do segmento. Sua missão nessa vida é outra: oferecer mobilidade para famílias que precisam transportar mais pessoas sem recorrer a um utilitário maior e mais caro.
Nesse aspecto, ele cumpre seu papel com extrema competência. O espaço interno é dos melhores da categoria, a modularidade da terceira fileira é inteligente, o motor Turbo 200 garante desempenho convincente e o câmbio CVT privilegia conforto e eficiência.

A suspensão bem adaptada às condições brasileiras, a boa lista de equipamentos e o custo de manutenção competitivo reforçam o compromisso. Há limitações naturais, como o espaço reduzido da terceira fileira para adultos em viagens longas e a ausência de um “pacote” mais completo de assistentes eletrônicos de condução, mas esses pontos não comprometem a proposta do veículo.
Para quem busca um SUV compacto capaz de acomodar até sete ocupantes, com comportamento equilibrado, bom nível de conforto, excelente versatilidade e linhas atuais, o Citroën C3 Aircross 7 Shine se destaca como uma das opções mais inteligentes disponíveis no mercado brasileiro. É um automóvel que alia racionalidade, praticidade, agilidade e tecnologia em um “pacote” coerente e honesto, pensado para atender às necessidades reais das famílias.
