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Retrô elétrico: por que o MG Go! parece um MINI?

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O MG Go! é o conceito de um hatch elétrico compacto, com visual retrô, apresentado pela MG Motor no recente Festival de de Velocidade de Goodwood. Ele mede cerca de 4 metros e tem produção esperada para o mercado europeu em 2027, visando rivalizar com modelos como o Renault 5 e o BYD Dolphin, entre outros. O curioso é que MG e MINI se inspiraram no mesmo capítulo da história automotiva britânica. E nenhuma delas pode reclamar da outra. O Mini Cooper a gasolina é hoje fabricado na histórica fábrica de Oxford, na Inglaterra, e a versão totalmente elétrica, por sua vez, é produzida na China, fruto de uma parceria do Grupo BMW com a montadora chinesa Great Wall Motors. 

por Ricardo Caruso

Bastou a SAIC chinesa, hoje dona da marca britânica MG, divulgar as primeiras imagens do seu MG Go! para começarem as comparações com a MINI, da BMW. As redes sociais entraram em polvorosa. As proporções, para-lamas bem definidos, desenho com volumes simples e a linguagem claramente retrô foram imediatamente classificadas pelos desentendidos. “Cópia”, ” falta de originalidade”, “clone”, bradaram eles. Adjetivos nada a ver, por exemplo, com o chinês Lifan 320, lançado em 2008 e comercializado no Brasil a partir de 2010, esse sim um rascunho mal feito do clássico Mini. No caso atual, convém parar um momento e refletir antes de decretar essa sentença.

Vivenciamos há algum tempo um período em que o desenho dos automóveis buscou clara inspiração nos modelos do passado, época do Chrysler PT Cruiser, VW New Beetle, Ford Thunderbird e 500, Chevrolet HHR e SSR e tantos outros. Mais recente, a Renault trouxe de volta o 5 e o 4, a Fiat não larga o 500, a Citroën vai ressuscitar o 2CV e já havia se inspirado neste com o C3, e praticamente todas as fabricantes fazem o trabalho arqueológico de vasculhar os próprios arquivos à procura de modelos que ajudaram a construir a formar sua identidade. Era apenas uma questão de tempo até a MG fazer o mesmo.

O primeiro Mini, de 1959.

A questão é que, quando decidiu fazer isso, foi buscar inspiração no mesmo capítulo da história automotiva britânica que a MINI. E isso foi meio caminho andado para a polêmica; são dois carros diferentes, de marcas diferentes, mas com a mesma origem.

MG Go! traseira
Na traseira, o MG Go! é mais caprichado que o Mini, mas continua deixando claro suas raízes.

Hoje, as marcas MG e MINI pertencem a Grupos completamente distintos. A primeira, como vimos, é da SAIC Motor, e a segunda, do Grupo BMW. Mas nem sempre foi assim. Muito antes desta separação, ambas cresceram debaixo do mesmo teto: primeiro na British Motor Corporation (BMC) e, mais tarde, na British Leyland. Foi neste contexto que Alec Issigonis desenhou o Mini original, em 1959. Um automóvel revolucionário não apenas pela engenharia, mas também pela consequente simplicidade da sua aparência e bom espaço interno.

Rodas pequenas (aro 10, tala 3,5) nas extremidades da carroceria, teto longo e plano e superfícies limpas deram ao Mini uma honestidade estética determinada basicamente pela função, e não pela forma; o único elemento caprichado no Mini original era a grade dianteira. O Mini, com sua simplicidade quase jesuíta, se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis de uma época particularmente fértil da indústria automotiva britânica.

MG Go!
O MG B (na direita) foi uma das fontes de inspiração do Go!, mas o seu desenho não esconde a linguagem visual que tem digitais no MINI original.

Modelos como o MG Midget e o MG B nasceram nesse mesmo clima e ambiente industrial e cultural. Apesar de serem dirigidos a públicos totalmente diferentes, compartilhavam os mesmos apelos visuais de simplicidade e honestidade, com beleza toda própria. Aquilo a que hoje chamamos carro com “jeitão de Mini” era, na verdade, a reunião de uma série de detalhes comum às diversas marcas da BMC e, depois, da British Leyland.

A MINI reconstruiu, e bem, a sua identidade sólida em torno de sua história, desde que a BMW adquiriu a marca. A marca MINI pertence ao BMW Group desde o ano de 2000. A fabricante alemã adquiriu a marca em 1994, quando comprou o Rover Group, mas o relançamento oficial do MINI com o desenho e a engenharia que conhecemos hoje, ocorreu em no Salão de Paris de 2000.

É, por isso, natural que qualquer automóvel que hoje recupere as suas clássicas características visuais seja imediatamente associado a ela. Mas isso não transforma todo este patrimônio em propriedade exclusiva da MINI. Pela mesma lógica, também a MG não pode reivindicá-lo com exclusividade, como se pertencesse apenas a ela.

A verdade é simples: as duas marcas -MG e MINI- cresceram durante décadas dentro da mesma indústria, sob controle dos mesmos Grupos e alimentadas por referências semelhantes. Apesar de terem seguido caminhos muito diferentes, continuam ligadas a um período comum da história do automóvel britânico.

Este legado pertence às duas, porque nasceu de uma história que entrelaça ambas. Quando duas marcas passam décadas compartilhando engenheiros e desenhistas, mecânicas e tecnologias, não é de estranhar que, mais de 60 anos depois, ao explorarem seus arquivos, acabem revisitando as mesmas referências. Surpreendente seria que essa proximidade nunca voltasse a se manifestar. Agora aconteceu.

Isto não significa que todas as soluções de desenho do MG Go! sejam instantaneamente originais da velha MG ou sejam protegidas pela história. Há semelhanças evidentes do MG novo com o MINI moderno, e será justo discuti-las numa mesa de bar quando for apresentado o modelo definitivo.

Reduzir o Go! a uma simples cópia é desconhecer o contexto de onde ele nasceu. A MG não está simplesmente invadindo o terreno do vizinho, nem a MINI pode reclamar exclusividade sobre um passado que não é só seu. Devemos celebrar que mais um carro retrô em breve estará enfeitando as ruas, repletas de mesmices em quatro rodas.


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