Elétricos

Salão de Pequim 2026: as marcas europeias não mandam mais na China. E nem no mundo…

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No Salão do Automóvel de Pequim 2026, o maior evento desse tipo no mundo, as marcas chinesas mostraram e confirmaram o seu domínio, não só em nível da tecnologia como no luxo e no desenho. Simplesmente estão avassaladoras no mercado automotivo mundial. Queira ou não, os chineses são os donos do mundo do automóvel.

da Redação

A dimensão do Salão de Pequim na edição deste ano foi impressionante. Abrangendo dois centros de exposições distintos, são quase 1.500 veículos em exibição e mais de 200 lançamentos de novos modelos e carros-conceito. Havia muito para ver em Pequim, então reunimos aqui algumas das outras principais novidades. Como nas edições anteriores, a maioria dos novos veículos que fizeram sua estreia foram projetados especificamente para o mercado chinês.

Todos os anos, os salões do automóvel na China, que desde 2008, alterna entre Xangai e Pequim, tem mostrado o avanço cada vez mais acelerado dos fabricantes locais e, nos últimos anos, o esforço das marcas europeias para não ficarem irremediavelmente para trás. Mas já perderam o passo.

Considerado o maior salão do mundo nos últimos 17 anos, este evento ocupa hoje lugar incontornável no calendário anual de feiras do setor. O que faz sentido, se consideramos que a China é o maior mercado automotivo do planeta. Anualmente, vendem por lá mais de 27 milhões de carros de passageiros, e produzem mais de 34 milhões de unidades (milhares e milhares destas posteriormente exportadas para todos os cantos do mundo).

Ao mesmo tempo, os salões realizados nos Estados Unidos e Europa têm perdido todo o seu protagonismo, chegando mesmo a desaparecer, como no caso de Genebra e Frankfurt, ou encolher muito, como Detroit

SEMPRE CRESCENDO

Mesmo quando surgem desafios pela frente, tudo na China parece estar crescendo, e o Salão de Pequim 2026 não foi exceção. Este ano, os organizadores decidiram expandir o espaço da feira combinando os pavilhões Shunyi no Centro Internacional de Exposições da China, onde já era realizado o Auto China, com o Centro Internacional de Exposições da Capital. O resultado são impressionantes 380 mil m2 de área de exposição (cerca de 53 campos de futebol!). Resumindo: esta edição tornou-se o maior salão do automóvel de todos os tempos em nível global.

O conteúdo esteve à altura do espaço. Ao longo dos dois dias de imprensa (dissemos imprensa, e não infuencers que berram de maneira histérica atrás de seus smartphones), a organização informou 181 lançamentos de automóveis de produção em série e mais 71 conceitos, espalhados entre os 1451 veículos expostos. A maioria destas novidades, claro, dizem respeito apenas ao mercado local.

O fato de haver 140 marcas disputando cada cliente torna a competitividade extrema e as políticas comerciais as mais agressivas do que em qualquer outra parte do mundo. Há 15 anos, o cenário era completamente diferente. As marcas ocidentais eram veneradas de maneira quase religiosa, num mercado que a Volkswagen dominou durante mais de três décadas, desde o início dos anos 1980 até ao começo dos anos 2020.

AUDI E7X dianteira 3/4
Audi E7X foi o segundo modelo apresentado pela marca exclusivamente para a China.

Os chineses foram hábeis. Forçaram os ocidentais a se associarem com eles, para poderem vender seus carros no mercado quase fechado, ao mesmo tempo que sugaram o conhecimento tecnológico e estilístico para melhorarem de maneira impressionante as suas marcas. A contratação de alguns dos melhores engenheiros, projetistas e desenhistas selou o futuro de destaque do carro chinês. Algo como comparar os primeiros modelos da JAC vendidos no Brasil e os atuais Leapmotor, já presentes em nosso mercado.

Ao mesmo tempo, enquanto as marcas tradicionais estavam envolvidas com seus motores a combustão, os chineses trabalharam pesado na evolução da tecnologia de propulsão elétrica (motores e, sobretudo, baterias). Estão num estágio que não serão mais alcançados por ninguém. Em nível social, o país evoluiu tanto, que a população desenvolveu um novo orgulho, aquele pelos seus produtos nacionais. 

Esta evolução tecnológica e de mentalidades culminou com a perda de liderança da Volkswagen do mercado chinês em 2023, para a BYD; a marca alemã foi, no ano passado, ultrapassada também pela Geely. Fácil prever que vai perder esse último lugar do pódio muito em breve.

Huawei Maextro S800, para incomodar a Rolls-Royce

As marcas internacionais por lá perderam e vem perdendo de forma consistente participação de mercado, de mais de metade das vendas anuais em 2017 (51%) para menos de um terço (31%) no final do ano passado. Para a indústria de origem alemã, a situação é simplesmente catastrófica: menos 25% em 2025 comparado com 2019, o que significa passar de 5,1 milhões de carros vendidos na China para 3,85 milhões em apenas seis anos.

Quem percorreu o Salão observou que a resposta dos fabricantes ocidentais tornou-se realmente desesperada, de extrema urgência. Às joint-ventures com fabricantes locais se somam marcas criadas exclusivamente para o mercado chinês. A Audi perdeu seus anéis pelo caminho. A Volkswagen criou submarcas, como a Jetta ou a Unyx. A Hyundai destacou este ano os modelos da sua nova marca IONIQ e a até a Mercedes-Benz e a BMW estão desenvolvendo veículos novos na China (incomparavelmente mais rápidos e baratos para depois exportar.

O conhecimento e as cadeias de valor são de tal modo apreciadas e valorizadas naquele lado do mundo (pois permitem desenvolver um automóvel com custos 30% a 50% mais baixos e até mesmo em meses) que até a Renault, que se retirou há anos do mercado chinês, criou a empresa ACDC para desenvolver o novo Twingo elétrico. O modelo chegou à Europa em metade do tempo habitual —dois anos em vez de quatro— e por menos de US$ 22 mil…

A marca Smart evoluiu para os SUVs e se perdeu no mercado, mas em Pequim revelou o Concept #2, que já mostramos aqui em AUTO&TÉCNICA,que marca o retorno às suas raízes de carro urbano. O desenho remete um pouco ao saudoso Aston Martin Cygnet, traduzindo a personalidade arrojada da Smart para uma nova era onde “a função se torna moda”, segundo a empresa. A plataforma totalmente elétrica ECA tem previsão de oferecer autonomia de 300 km e permitir tempo de carregamento de 10 a 80% em menos de 20 minutos.

XPeng GX

XPeng GX

O novo SUV topo de linha da montadora chinesa XPeng é um veículo de seis lugares com visual semelhante ao do Range Rover e que oferece até 750 km de autonomia com tração nas quatro rodas em sua versão totalmente elétrica. Ele vem equipado com rodas de 22 polegadas e atinge o coeficiente de penetração aerodinâmica (Cx) de apenas 0,255, sendo mais aerodinâmico que um Toyota Prius, por exemplo. A tecnologia de direção autônoma mais avançada da empresa também está presente, conferindo ao GX a capacidade de operar como um robotáxi.

Peugeot Concept 6

A Peugeot apresentou dois conceitos com visual semelhante em Pequim, com foco no mercado chinês, incluindo um SUV de luxo e a wagon esportiva mostrada acima. Chamado de Concept 6, ele pode indicar um sucessor para o 508, que saiu de linha no ano passado. Os LEDs horizontais dianteiros são a nova interpretação das icônicas garras iluminadas dos Peugeot. Os modelos de produção serão exportados da China para a Europa.

BYD Formula X

A BYD obviamente teve uma grande linha de produtos exposta no Salão. O Formula X é um roadster de duas portas da sua mais recente marca de desempenho, a Fang Cheng Bao, que busca oferecer uma experiência mais interessante de direção, semelhante à de um supercarro. O desenho é extremamente agressivo e inclui diversas entradas de ar funcionais. Os três motores elétricos produzem a potência combinada de 1.000 cv, apenas um terço da potência do YangWang U9 Xtreme, o carro recordista da BYD. A marca planeja iniciar a produção e as vendas do Formula X no próximo ano.

Hyundai IONIQ V

Lembra-se do  conceito Venus que a Hyundai apresentou algumas semanas atrás? Pois ele agora se materializou no sedã IONIQ V, pronto para produção, o primeiro modelo IONIQ dedicado especialmente ao mercado chinês. Com visual semelhante ao de uma Lamborghini mais antiga, tem tamanho semelhante ao de um Sonata e lembra o Honda 0 Saloon, recentemente descontinuado; promete autonomia de mais de 600 km, segundo o ciclo de testes CLTC da China. O IONIQ V é apenas um dos 20 novos modelos que a Hyundai pretende lançar por lá nos próximos cinco anos.

Nissan Terrano PHEV

O conceito Terrano PHEV (acima) dará origem a um novo modelo de produção, que será apresentado no próximo ano e comercializado em mercados selecionados ao redor do mundo, posicionando-se entre o Patrol, maior, e o X-Trail (também conhecido como Rogue), menor. Espera-se que ele compartilhe a mesma plataforma de carroceria sobre chassi do Frontier Pro PHEV , que estreou em Xangai no ano passado, entregando 429 cv e 80 mkgf de torque.

Outro conceito da Nissan no evento foi o Urban SUV PHEV, inspirado no Nissan NX8 e projetado para o público jovem chinês. A dianteira inclui LEDs estilosos e uma generosa grade preta na parte inferior. O perfil também é elegante e minimalista. As especificações não foram divulgadas.

Jetta X

Na China, Jetta não é nenhum modelo, e sim o nome usado como uma marca independente desde 2019 na China, parte do Grupo Volkswagen. O novo conceito Jetta X é um SUV que antecipa a expansão da marca para veículos elétricos. As informações técnicas são mínimas, mas o desenho sugere capacidade para todos os tipos de terreno.

O Id.Unyx 09 é um carro de produção da Volkswagen Anhui, joint venture com a montadora chinesa JAC, velha conhecida dos brasileiros. O sedã elétrico mede aproximadamente cinco metros de comprimento e tem visual elegante com luzes diurnas bem finas que quase se tocam na dianteira. Sistemas avançados de assistência ao motorista de Nível 2 e recurso de inteligência artificial também estão incluídos.

NOVOS TEMPOS

O tempo recente em que o mercado e indústria chinesas eram dominados por primitivos carrinhos elétricos já ficou no passado. Hoje imperam os modelos luxuosos, grandes e digitais, praticamente todos das marcas locais. Os chineses abandonaram as tradicionais marcas europeias e norte-americanas e querem mostrar quem são nos seus carros de topo de linha, que seguem a nova tendência: a maioria destes carros são identificados pelos algarismos 9 e 8, o que pode gerar uma grande confusão.

Mas isso tem explicação. Na China, o número 8 é o preferido e representa sorte, prosperidade, sucesso e fortuna. A crença popular associa o som de “oito” à palavra chinesa para “prosperar” ou “fazer fortuna”. É considerado o número da sorte por excelência, simbolizando riqueza e status, com múltiplos (88, 888, 8888…) sendo ainda mais valiosos. Já o número 9Na China, o número 9 representa longevidade, eternidade e boa sorte, devido à semelhança sonora com a palavra “duradouro”. Tradicionalmente associado ao Imperador, simboliza o poder supremo, perfeição e integridade por ser o maior dígito único. É muito utilizado para desejar vida longa e amor eterno. 

A NIO tenta driblar a crise em que especialistas dizem estar envolvida com o ES9, enorme SUV com tecnologia de 900 V e capacidade de carregamento até 600 kW, enquanto a Li Auto mostrou L9, com capacidade de 3 bilhões de operações por segundo de poder de computação, suspensão ativa, 800 V e direção eletrônica. Junta-se a eles a Great Wall Motor (GWM) com vários SUVs e também o SUV de luxo GWM V9X.

E esta lista numerológica vai longe: Zeekr 8X, Onvo L80, Nissan NX8 (com tecnologia Dongfeng), Voyah Taishan 8, IM LS8, Aito M9, Luxeed V9, Volkswagen ID.Unyx 09 Concept (tecnologia XPeng) , Volkswagen ID.Era 9X (tecnologia SAIC), Wey V9X e Xiaomi YU9, entre tantos outros.

A mudança de estratégia -para SUVs grandes e luxuosos- não acontece por acaso, sendo resultado de cálculos muito bem estudados e planejados As vendas de SUV de grande porte superaram as 110 mil unidades no primeiro trimestre deste ano, incremento de 170% diante do mesmo período de 2025.

Zeekr 8X dianteira 3/4
O Zeekr 8X e híbrido plug-in e, com 1400 cv, passa a ser também o SUV mais potente do mundo.

Os grandes vendedores no mercado deixaram de ser os elétricos mais baratinhos e passaram a ser definidos pela melhor relação entre espaço, eletrônica avançada, conforto e motorização. E todos sabem que carros mais caros geram margens de lucro muito maiores. A Porsche, a BMW e a Mercedes-Benz beiram o desespero com modelos chineses oferecendo muito mais e por menos da metade do preço

E ao contrario do que se possa imaginar, na China ainda há vida inteligente além dos carros totalmente elétricos. Eles já deram um passo adiante. Os modelos híbridos com extensor de autonomia —chamados EREV (Extended Range Electric Vehicle) é como o nome diz um veículo elétrico de alcance estendido, onde o motor a combustão carrega a bateria sem ter ligação direta com as rodas. Estão ganhando clientes em todos os segmentos do mercado. A XPeng está seguindo uma estratégia dupla, com os elétricos puros e os “super RE” (Range Extenders), no caso do GX, numa faixa de mercado mais elevada.

O Leapmotor D19 é outro exemplo desta estratégia, oferecendo muito conteúdo por bem pouco dinheiro. Além de um supercomputador com “miolo” Snapdragon 8797 (para controlar interior, sistemas de ajuda à condução, faróis e iluminação, climatização, vidros e conectividade), tem uma bateria de 80,3 kWh, a maior até agora instalada num elétrico com extensor de autonomia. A marca, associada à Stellantis, já vende no Brasil os SUVs B10 e C10.

A sofisticação técnica e tecnológica da Leapmotor é vista também na versão elétrica do novo topo de linha da marca, servida por uma impressionante tensão elétrica de 1000 V. Justo quando a Mercedes-Benz e a BMW estavam radiantes e muito orgulhosas de terem lançado os seus primeiros modelos com 800V… Ou seja, seguem um passo atrás dos chineses, e custando muito mais.


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