Volvo 850/Tesla: eletrificando o passado
Carro modificado dos novos tempos é assim. Um dos preparadores de carros mais famosos da Alemanha -a JP Performance- transformou esta clássica wagon Volvo 850 dos anos 1990 no Volto, com propulsão elétrica Tesla.
Antes de se tornar um dos projetos mais radicais do universo contemporâneo de preparação, a wagon Volvo 850, lançada em 1991, era exatamente aquilo que seu fabricante sueco pretendia: uma perua familiar, espaçosa, segura e construída para durar décadas. Com suas linhas retas e proporções quase de utilitários, ganhou apelidos pouco lisonjeiros ao redor do mundo. Era chamado de “caixão”, “caixa de sapatos” ou simplesmente “o tijolo sueco”. Ainda assim, por trás daquela aparência austera escondia-se um automóvel extraordinariamente eficiente, especialmente em suas versões mais esportivas.
por Ricardo Caruso

Lançado no início dos anos 1990, o Volvo 850 marcou uma verdadeira revolução para a marca. Foi o primeiro Volvo de grande porte a adotar tração dianteira e a ostentar o inovador motor transversal de cinco cilindros, configuração que se transformaria em assinatura técnica da fabricante por muitos anos. Robusto, confortável e extremamente seguro, o modelo conquistou famílias em diversos mercados. Porém, foi a versão esportiva 850 R que elevou definitivamente o nome do carro ao status de ícone (leia aqui matéria publicada em AUTO&TÉCNICA).

Equipado com um motor 2.3 turbo de cinco cilindros, capaz de entregar até 250 cv de potência máxima, o Volvo 850 R era capaz de surpreender esportivos muito mais exóticos. Sua aceleração vigorosa e sua velocidade máxima superior a 250 km/h fizeram com que muitos proprietários de cupês italianos descobrissem, da maneira mais humilhante possível, que aquela discreta wagon escandinava era muito mais rápida do que aparentava. Para completar sua aura legendária, o modelo ainda participou das competições de turismo da década de 1990, incluindo o Campeonato Britânico de Carros de Turismo (BTCC), tornando-se uma das mais célebres station wagons de competição de todos os tempos.

Mas nem mesmo a trajetória gloriosa do Volvo 850 poderia preparar os entusiastas para aquilo que surgiria quase quatro décadas depois.

A alemã JP Performance, uma das preparadoras mais respeitadas do planeta, decidiu reinterpretar completamente o clássico sueco. Conhecida por projetos que desafiam os limites da engenharia e da criatividade —envolvendo de carros populares até máquinas como Ferrari LaFerrari e Porsche 918 Spyder—, a empresa resolveu promover uma transformação tão radical quanto controversa: substituir toda a mecânica original do Volvo por um moderno sistema de propulsão elétrica da Tesla.

O resultado recebeu um nome à altura de sua ousadia: Volto, mistura de Volvo com Volt.
Desenvolvido pela Mean Machines e construído pelo HOTE Studio, o projeto utiliza como ponto de partida um Volvo 850 convencional. No entanto, qualquer semelhança com o carro que um dia saiu orgulhoso das linhas de montagem da Volvo termina praticamente na silhueta básica da carroceria.

A plataforma original foi extensamente reforçada para suportar as novas exigências estruturais impostas pelo conjunto elétrico. A potência instantânea dos motores, o peso adicional das baterias e a proposta voltada ao uso extremo exigiram uma reengenharia completa do veículo. Cada componente foi pensado para suportar níveis de desempenho muito superiores aos imaginados pelos engenheiros suecos nos anos 1990.

Visualmente, o Volto é um carro agressivo e intimidador. Os discretos detalhes cromados desapareceram, assim como os conjuntos ópticos originais. Em seu lugar surgem modernos faróis com projetores de LED, integrados a uma dianteira completamente redesenhada. Os para-choques foram ampliados e incorporam enormes entradas de ar destinadas ao resfriamento do sistema elétrico.

As modificações mais impressionantes, contudo, aparecem nas laterais. A carroceria foi alargada em vários centímetros, conferindo ao modelo uma postura musculosa e intimidadora. As portas traseiras foram eliminadas para dar lugar a gigantescas tomadas de ar responsáveis por auxiliar na dissipação térmica dos componentes elétricos. Na traseira, as clássicas lanternas verticais aparecem escurecidas e reforçam o visual contemporâneo, enquanto um pronunciado spoiler prolonga a linha do teto e contribui para a estabilidade em altas velocidades.


A utilização extensiva de fibra de carbono permitiu controlar parte do aumento de peso decorrente da eletrificação. As rodas de grandes dimensões, desenvolvidas especificamente para o projeto, reinterpretam o tradicional desenho de cinco raios das versões R do 850, estabelecendo uma conexão visual entre passado e futuro.
Se o exterior impressiona, o interior deixa claro que o Volto não foi concebido para agradar puristas nem para servir como transporte familiar.

Praticamente nada do habitáculo original foi preservado. O ambiente foi completamente esvaziado com o objetivo de reduzir peso e privilegiar a funcionalidade. Uma robusta “gaiola” de proteção ocupa o espaço interno, aumentando a rigidez estrutural e garantindo segurança em condições extremas de utilização. Os bancos traseiros desapareceram por completo e parte dos componentes da suspensão invadem o habitáculo, evidenciando a profundidade das modificações realizadas.
Os assentos dianteiros são sofisticados bancos Recaro Podium, cuja estrutura integral em fibra de carbono alia leveza e resistência. O revestimento em Alcântara amarelo fluorescente cria um interessante contraste com os tons metálicos predominantes no interior e dialoga com outros detalhes externos do veículo. Cintos de segurança de seis pontos reforçam a vocação nada pacata do conjunto.

O painel original também deu lugar a uma configuração totalmente nova. Um volante esportivo Momo foi reposicionado para oferecer ergonomia adequada à condução mais agressiva, enquanto uma tela digital concentra todas as informações relacionadas ao funcionamento do sistema elétrico. Onde antes existia a tradicional alavanca de câmbio, encontra-se agora um seletor rotativo que permite ajustar diferentes parâmetros do controle de tração, adequando o comportamento dinâmico às preferências do motorista.
No coração deste Volto está o elemento que torna este projeto verdadeiramente singular: seu sistema de propulsão elétrica derivado da Tesla. O conjunto foi cuidadosamente integrado à estrutura do Volvo, proporcionando distribuição de peso mais equilibrada. As baterias, um dos componentes mais pesados de qualquer veículo elétrico, foram estrategicamente posicionadas tanto na dianteira quanto atrás dos bancos dianteiros, contribuindo para baixar o centro de gravidade e melhorar o comportamento dinâmico.
Mais impressionante ainda é a versatilidade do sistema, que permite configurar diferentes estratégias de entrega de potência. Dependendo do ajuste selecionado, o veículo pode privilegiar o eixo dianteiro, o traseiro ou operar com tração integral, ampliando consideravelmente suas possibilidades de utilização, seja em circuitos fechados, demonstrações de drift ou simples exibições de força bruta.
E força é algo que definitivamente não falta. Ao volante, conforme demonstrado por Jean Pierre Kraemer, fundador da JP Performance, o Volto entrega uma experiência tão fascinante quanto assustadora. A resposta imediata típica dos motores elétricos faz com que o carro destrua pneus com impressionante facilidade. A traseira escapa em longas derrapagens controladas, enquanto nuvens de fumaça invadem a cabine durante manobras mais radicais.
Não existe o ronco metálico do famoso cinco-cilindros turbo que eternizou o Volvo 850 R. Em seu lugar surge um assobio agudo e quase futurista, acompanhado pelo ruído dos pneus lutando desesperadamente para transferir ao asfalto uma quantidade absurda de torque instantâneo.
Para alguns entusiastas, a substituição do motor a combustão por um conjunto elétrico representa uma heresia imperdoável. Para outros, trata-se da prova definitiva de que a paixão pelos automóveis não depende exclusivamente do combustível utilizado, mas da capacidade de provocar emoções intensas.
Independente da opinião de cada um, é impossível permanecer indiferente diante do Volto. Afinal, poucas vezes na história do automóvel um pacato carro familiar dos anos 1990 — aquele mesmo “tijolo sueco” alvo de incontáveis piadas — renasceu como uma máquina elétrica extrema, capaz de desafiar convenções e redefinir completamente o significado da expressão restomod.

O Volvo 850 já havia conquistado seu lugar na história ao demonstrar que uma wagon podia humilhar esportivos consagrados. Agora, graças à ousadia da JP Performance, ele prova que até mesmo os maiores ícones do passado podem encontrar uma segunda vida no futuro eletrificado do automóvel.
