Por que salvar os carros a combustão pode custar mais de US$ 90 bi para a Europa?
A decisão da União Europeia — adiar o prazo para a produção exclusiva de veículos com emissões zero — foi recebida com alívio generalizado pelo setor automotivo europeu. Até poucos dias, a UE preparava-se para impor a proibição total da produção de veículos com motor de combustão interna, mas a nova decisão permite que modelos capazes de reduzir as emissões em 90% continuem a ser fabricados após 2035.
da Redação

A mudança representa uma alteração profunda na estratégia climática aplicada à indústria, ainda que deixe em aberto várias questões, em especial se existirá uma data futura para a proibição total. Por enquanto, os 10% de emissões remanescentes poderão ser compensados por meio de híbridos plug-in e combustíveis de baixas emissões, afastando, pelo menos temporariamente, o cenário considerado crítico por muitos fabricantes.
Apesar do alívio imediato, a situação do setor automotivo europeu continua frágil e em profunda crise. A concorrência crescente dos fabricantes chineses, aliada ao aumento dos custos de produção, tem deteriorado a rentabilidade das empresas, que calcularam mal o novo cenário. A crise atingiu tal dimensão que levou, por exemplo, ao encerramento de fábricas da Volkswagen na Alemanha, algo inédito na história do Grupo alemão.
Especialistas alertam que a flexibilização das regras pode ter um custo elevado a médio prazo. Há previsões que apontam para perdas de até US$ 90 bilhões, caso a indústria europeia fique para trás no desenvolvimento das tecnologias que irão dominar o mercado automotivo do futuro. E esses investimentos são caros, com a maioria das montadoras sem caixa para tanto.
Fabricantes como a Renault defenderam que manter o prazo inicial provocaria colapso industrial em vários países europeus, uma vez que a adoção dos veículos elétricos está avançando de maneira mais lenta do que o planejado. Atualmente, estes modelos eletrificados representam apenas 15,6% das vendas na Europa.
Algumas empresas ligadas ao setor consideram que atingir 100% de vendas de veículos elétricos, até 2035, é cada vez mais difícil sem apoio público significativo. As projeções apontam para cerca de dois milhões de veículos elétricos vendidos em 2025, o equivalente a apenas 15% dos novos registros naquele continente. Neste contexto, permitir a continuidade dos híbridos plug-in após 2035 é visto como uma transição menos ambiciosa, mas mais compatível com a preservação da capacidade industrial europeia.
Para os analistas a decisão da UE evita um cenário de colapso total do setor a curto prazo. Os especialistas destacam que a possibilidade de compensar a diferença entre emissões zero e uma redução de 90% cria uma nova perspectiva, essencial para que as empresas consigam adaptar-se, beneficiando-se também da maior eficiência dos novos motores de combustão.
Uma coisa é consenso: a Europa vacilou e chegou tarde à concorrência com os veículos elétricos chineses, mais eficientes e baratos, e fortemente apoiados por políticas públicas. Ainda assim, considera que impor metas irreais teria colocado em risco a indústria automotiva, que representa cerca de 7% do PIB europeu e emprega aproximadamente 13 milhões de pessoas. Apesar disso, há o alerta para a falta de clareza quanto ao roteiro futuro, o que mantém o setor atolado em incertezas.
As diversas associações do setor saudaram a maior flexibilidade introduzida. A ACEA (Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis) considerou que a nova abordagem reconhece a necessidade de neutralidade tecnológica para garantir uma transição ecológica viável, embora alerte de que os detalhes serão decisivos.
Outras vozes foram mais críticas. A associação espanhola Anfac anunciou que a UE não criou as ferramentas necessárias para cumprir os objetivos definidos, enquanto a Stellantis afirmou que o “pacote” não responde aos problemas mais urgentes, sobretudo no segmento dos veículos comerciais leves. Já a Mercedes-Benz e a Volkswagen classificaram a decisão como um passo pragmático, ajustado às condições reais do mercado.
Organizações ambientais como a Transport & Environment reclamam que adiar o objetivo de 2035 pode resultar numa queda acentuada da produção, do emprego e do valor econômico do setor. Num cenário de recuo regulatório sem políticas industriais robustas, consultores estima perdas de cerca de US$ 90 bilhões e até um milhão de empregos.
A Volvo compartilhou esta preocupação, considerando a decisão uma solução paliativa com consequências estruturais. Para o construtor sueco, enfraquecer compromissos de longo prazo em troca de ganhos imediatos pode comprometer a competitividade europeia, defendendo um quadro político mais ambicioso e investimentos sólidos em infraestruturas.
A própria Comissão Europeia reconhece que nenhuma das opções colocadas em cima da mesa estavam isenta de custos altos. Estudos anteriores já apontavam para perdas de milhares de postos de trabalho até 2030 e dezenas de milhares até 2040. Entre os três cenários analisados —cumprimento rigoroso, metas faseadas e flexibilidades técnicas— acabou por prevalecer este último, considerado o mais equilibrado no momento diante dos riscos econômicos e industriais. Mas não significa que pode fracassar.
A UE admite que a regulamentação apresenta altos riscos, em especial ao poder travar investimentos em cadeias de valor alternativas, como combustíveis renováveis, essenciais para a descarbonização gradual do parque automotivo existente.

