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OS PREÇOS (?) DE LINDÓIA

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Caminhar pelos gramados da Praça Adhemar de Barros durante o Encontro Brasileiro de Autos Antigos em Águas de Lindóia, Interior de SP, há tempos é uma experiência que desafia não apenas as leis da física (aquela coisa de dois corpos não ocuparem o mesmo espaço ao mesmo tempo, lembra?), mas também a lógica do sistema financeiro global. As distorções são notórias e merecem estudo da NASA.

por Rubens Caruso Junior

Entra ano, sai ano, parece que virou tema fixo: os preços estratosféricos que alguns comerciantes e particulares colocam em seus carros (supostamente) à venda. Digo supostamente porque para algumas “ofertas” não é preciso ser especialista para ver que a noção de realidade passou longe. O que tecnicamente justifica um Fusca custar o dobro ou o triplo de um Camaro das gerações recentes? Basta cruzar o mágico portal mágico do evento para que o valor de qualquer automóvel fabricado no século passado sofra uma valorização instantânea e inexplicável, deixando o mais abusado lobo de Wall Street de queixo caído.

Há quase duas décadas escrevi sobre os valores dos antigos, ainda na fase impressa de AUTO&TÉCNICA, que você relembra abaixo. Para ver as imagens ampliadas, clique com o botão direito do mouse sobre elas e abra-as em uma nova guia.

Chamava atenção a exorbitância pedida em um Maverick GT 1975, então na casa dos R$ 60 mil reais (assustador para a época) ou, em “moeda forte”, US$ 30 mil. Quis o destino que, em Águas de Lindóia alguns Maverick (em excepcional condição, é verdade) dessem o ar da graça por valores absolutamente sem graça, acima dos R$ 500 mil. Isso mesmo, meio milhão de reais! Considerando o dólar a R$ 5 no momento em que escrevo esse texto, em junho de 2026, teríamos, de novo em “moeda forte”, impressionantes US$ 100 mil (por extenso, para que fique claro, cem mil dólares) ou mais!

Na matéria antiga comparei o valor pedido no Maverick nacional diante do seu primo gringo Mercury Comet, menos de um terço dos US$ 30 mil, destacando que a questão dos custos de importação já naquela época não serviriam como régua — se fosse o caminho oposto, o Maverick brasileiro sendo exportado para os Estados Unidos, certamente não encontraria compradores pelo valor anunciado. Avançando 20 anos no tempo e cheganbdo aos dias atuais, alguém realmente acredita que o mais abastado colecionador de carros exóticos, na terra de Trump, empenharia US$ 100 mil no Ford brazuca?

“Ah, Rubens, você não está considerando a inflação brasileira”. Ok, vamos lá, desafio aceito: usando a “Calculadora do Cidadão” do Banco Central, inflação pelo IPCA, o Maverick de R$ 60 mil valeria hoje hipotéticos R$ 170 mil. É muita grana, mas vamos adicionar outros fatores como escassez do modelo, aumento dos custos da mão de obra especializada, novos impostos etc., e fica a pergunta: estão justificados os mais de R$ 300 mil extras? Discussão no mínimo controversa, sei bem, mas é impossível não lembrar do comentário já clássico no meio: “esse preço só pode ser a patroa mandando o cara vender, contra a vontade dele”.

Por falta de espaço vou resistir à coceira do mercado de pulgas de Lindóia, onde uma calota enferrujada ganha status de joia arqueológica resgatada pessoalmente por Indiana Jones, ou um simples rádio toca-fitas dos anos 1980 custar o equivalente a um Iphone 15 de 256 Gb. Sigo.

Final de semana passado assisti mais um vídeo (link no final), de um canal que gosto muito, cujo autor visita, nos Estados Unidos, lojas de carros antigos — impressionante a quantidade dessas lojas e os estoques delas! Selecionei algumas ofertas, aqueles preços que quase fazem rolar uma lágrima pelo fato de pertencer à porção familiar que veio “fazer a América” no polo errado, o Sul. Com certeza os que optaram pela América do Norte estão bem mais felizes. Veja alguns exemplos, mas não caia na tentação de converter os valores, pense se você vivesse lá ganhando em Trumps, a moeda local.

“Muitos detalhes contribuem para a formação do preço de um automóvel, desde o fato de ser mesmo uma ‘raridade’, aquela da qual existem poucas unidades e muita gente querendo uma, e que é cuidada e admirada como uma pintura de Van Gogh. Pode ter certeza que são poucos carros que merecem este valor”, relatei em 2007. Se você ainda está fazendo as contas (vezes cinco) dos anúncios acima, vou baixar a bola, e entendo a postura de quem vai chorar no chão do banheiro em posição fetal. Veja só.

Menos de 10 mil “dinheiros” num Mustang conversível! V6? Não ligo!
Na internet aqui tem por R$ 640 mil. Ou US$ 128 mil.

Mas, meu caros… confesso que no quesito “Mãe Dináh” falhei miseravelmente (ou não?), quando cravei, lá em 2007, que “a boa e velha Lei da Oferta e da Procura acabará cuidando do assunto, a não ser que ela seja revogada no Brasil. E aí teremos Maverick por preço de Maverick, Fusca por preço de Fusca, Dodge por preço de Dodge”.

Ao que tudo indica a Lei de Mercado foi sim revogada, em uma conspiração ocorrida na calada de alguma noite fria em Águas de Lindóia. Brasil…sil…sil!


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