O desconhecido DKW-SAM polonês
O carro que nasceu com motor de DKW e alma de avião
Há automóveis que entram para a história pela produção em milhões de unidades, outros pela potência, pelo luxo , pelo visual ou pelas vitórias nas pistas. E existem aqueles que se tornam importantes justamente porque jamais foram produzidos em série. O DKW-SAM pertence a esta última categoria.
por Ricardo Caruso

Construído artesanalmente na Polônia em 1960 pelo engenheiro e projetista de planadores Władysław Okarmus, o pequeno cupê é uma das mais curiosas experiências de construção automotiva independente do pós-guerra. Seu nome está associado ao universo dos chamados SAM —“Samochód Amatorski Motoru”-, expressão que pode ser traduzida como “Automóvel Amador da Motor”, referência aos concursos promovidos pela revista polonesa Motor para estimular a construção de automóveis por particulares. Mas o DKW-SAM vai muito além de um simples carro artesanal.

Ele representa uma extraordinária transferência de tecnologia entre dois mundos: o automotivo e a aviação. Seu construtor era um especialista em aeronaves e aplicou ao automóvel conhecimentos de aerodinâmica, construção leve e materiais compostos que, naquele período, ainda eram pouco comuns na indústria automotiva.

O resultado foi um pequeno cupê de aparência incomum, construído ao longo de aproximadamente uma década (começou em 1960 ou 1962, não há precisão nesse registro), utilizando como ponto de partida componentes mecânicos de um antigo DKW F8 e uma carroceria concebida praticamente do zero. Mais do que um automóvel, o DKW-SAM foi um exercício de engenharia.

Para compreender a origem do DKW-SAM é necessário voltar à Polônia do pós-guerra. Nas décadas de 1950 e 1960, adquirir um automóvel particular por lá não era uma tarefa simples. A disponibilidade de veículos era limitada, os preços eram elevados em relação ao poder aquisitivo e a oferta de automóveis novos era pequena. Resumindo: ter carro na Polônia naqueles tempos era um luxo para poucos.
Para quem quisesse ou precisasse, a solução era construir o próprio carro. A situação acabou criando uma cultura de construção artesanal. Pessoas com conhecimentos de mecânica, metalurgia, carpintaria e engenharia aproveitavam componentes usados e restos de veículos antigos para criar seus próprios automóveis. Guardadas as devidas proporções, mais ou menos o que acontecia do outro lado do mundo, com os estadunidesnes e seus hot rods.

A revista Motor, então uma das principais publicações automobilística e automotiva polonesas (lançada em 1952 e veiculada até hoje, em edições semanais), ajudou a estimular esse movimento por meio de concursos destinados aos construtores amadores. Esses automóveis passaram a ser conhecidos genericamente como SAM.
Não havia necessariamente uma receita técnica. Alguns eram esportivos, outros pequenos utilitários, alguns utilizavam chassis modificados e havia até projetos bastante sofisticados. O DKW, de Władysław Okarmus, tinha uma característica que o diferenciava de muitos deles: seu construtor conhecia profundamente a engenharia aeronáutica.

A história do DKW-SAM está diretamente ligada à trajetória de seu criador. Okarmus iniciou seu trabalho no Szybowcowy Zakład Doświadczalny – SWD, na cidade polonesa de Bielsko Biała, em 1948. O SWD era um importante centro polonês de desenvolvimento de planadores. E Okarmus viria a se tornar um dos nomes importantes da engenharia aeronáutica daquele país.

Seu trabalho esteve ligado a diversos projetos de planadores, incluindo as populares aeronaves das linhas Foka, Cobra e Jantar. Essa experiência é fundamental para compreender o DKW-SAM. Enquanto um automóvel convencional da época era concebido fundamentalmente como uma estrutura metálica relativamente pesada, um planador precisava obedecer à filosofia completamente diferente, aquela onde cada quilograma importava.


A resistência estrutural precisava ser obtida com o menor peso possível e a aerodinâmica era fundamental. Materiais leves e técnicas de construção diferentes das empregadas na indústria automotiva eram parte do cotidiano de um projetista aeronáutico. Okarmus levou essa mentalidade para o automóvel.
O projeto começou a ganhar forma no início dos anos 1960. Como base mecânica, vimos que foi escolhido um DKW F8, modelo anterior à Segunda Guerra Mundial. O F8 era um representante típico das soluções técnicas da DKW: motor de dois tempos, tração dianteira e construção relativamente simples.

Para Okarmus, entretanto, aquele automóvel não era simplesmente um veículo antigo. Era um conjunto de componentes que poderia servir de base para algo completamente novo. Do DKW foram aproveitados elementos fundamentais como:
- chassi;
- suspensão;
- conjunto de transmissão;
- sistema de tração;
- componentes mecânicos;
- motor de dois cilindros e dois tempos.
A grande transformação aconteceu na parte superior. A carroceria original praticamente desapareceu. Em seu lugar surgiu uma estrutura completamente nova, moldada segundo princípios muito mais próximos da aeronáutica.
É justamente aqui que o DKW-SAM se torna extraordinário. A carroceria foi concebida como um cupê de duas portas, com linhas bastante aerodinâmicas. Em vez de simplesmente revestir uma estrutura metálica com chapas convencionais, Okarmus empregou técnicas associadas à construção de planadores.
A carroceria utilizava laminado de fibra de vidro com resina epóxi, material que começava a encontrar aplicações importantes na indústria aeronáutica. Por baixo desse revestimento existia uma estrutura leve. O objetivo era simples: obter uma carroceria resistente sem acrescentar o peso de uma construção automotiva convencional.
Era uma ideia bastante avançada para um automóvel artesanal daquele período. A utilização de materiais compostos também permitia uma liberdade maior na criação das formas. Sem depender de grandes prensas industriais, o construtor podia produzir painéis de formas complexas utilizando moldes preparados especificamente para o projeto.
O resultado foi uma carroceria extremamente peculiar. Vista de determinados ângulos, ela parece quase uma pequena aeronave sem asas. E essa aparência não é coincidência. A preocupação com o peso não ficou restrita à carroceria.
Partes do assoalho foram feitas com chapas de duralumínio, material amplamente empregado na aviação. O duralumínio combina alumínio com outros elementos de liga metálica para proporcionar resistência superior à do alumínio puro, mantendo uma massa relativamente baixa.
Para um automóvel equipado originalmente com motor de apenas 20 cv, economizar peso fazia enorme diferença, em especial nas acelerações e retomadas de velocidade. Não se tratava de buscar potência, era necessário fazer com que cada cv de potência tivesse o menor número possível de quilos para movimentar, a tal relação peso/potência. Essa é uma lógica muito semelhante à empregada em aeronaves leves.

O primeiro conjunto mecânico utilizado no DKW-SAM ofereciades parcos 20 cv de potência máxima. Para os padrões atuais, é uma potência quase simbólica, e mesmo nos anos 1960, esses 20 cv estavam muito longe de representar um bom desempenho, quanto mais algo que soasse como “esportivo”.
Mas Okarmus não pretendia compensar a falta de potência com um motor maior. A solução estava em outra variável: reduzir peso e resistência aerodinâmica. O pequeno motor de dois cilindros e dois tempos precisava empurrar uma carroceria leve e relativamente eficiente.
É um conceito que parece simples, mas que exige conhecimento de engenharia. Em um automóvel convencional, potência pode compensar peso excessivo. Num projeto artesanal como o DKW-SAM, peso e aerodinâmica precisavam compensar a falta de potência.
Apesar da transformação radical, o carro manteve uma ligação espiritual bastante clara com seu doador alemão. O DKW F8, como vimos, utilizava o layout característico da marca: pequeno motor de dois tempos e tração dianteira.
A DKW havia desenvolvido uma boa reputação justamente pela utilização dos motores de dois tempos e pela tração dianteira, uma combinação que, décadas depois, se tornaria extremamente comum na indústria. No DKW-SAM, essa arquitetura era particularmente interessante, pois permitia manter o conjunto mecânico relativamente compacto.
O motor de dois cilindros também apresentava uma construção simples, com cinco peças móveis e sem a complexidade de um quatro tempos equivalente. Para um automóvel construído praticamente de maneira artesanal, simplicidade era uma vantagem considerável.

Talvez uma das características mais fascinantes do projeto seja o tempo que foi necessário para concluí-lo. O DKW-SAM não nasceu de uma linha de produção. Também não havia uma equipe de centenas de engenheiros, fornecedores e projetistas trabalhando simultaneamente. Era apenas o projeto de um carrinho pessoal.
Okarmus desenvolveu, modificou e aperfeiçoou o seu carro ao longo de vários anos. O trabalho começou no início dos anos 1960 e a configuração definitiva só seria alcançada posteriormente, inclusive na traseira da carroceria, mais de 10 anos depois. Era um daqueles carros que nunca ficam prontos.
Isso explica uma característica curiosa do carro preservado atualmente: ele reúne componentes provenientes de diferentes automóveis e diferentes períodos. À medida que surgiam novas possibilidades, o construtor incorporava soluções mais modernas.
O DKW-SAM acabou se transformando numa espécie de catálogo da indústria automotiva europeia de seu tempo. Além dos componentes DKW, aparecem elementos provenientes de outros veículos. Há peças relacionadas à Syrena, automóvel produzido na Polônia. Também foram utilizados componentes provenientes de modelos como Škoda Octavia Super e Wartburg 31. Até motocicletas contribuíram para o projeto, como a Jawa Perak. Mais tarde, elementos do Polski Fiat 125p, um dos automóveis mais importantes da indústria polonesa, também deram sua contribuição na construção do DKW-SAM
Essa característica diz muito sobre a realidade daqueles anos. Para construir um automóvel artesanal, o projetista precisava ser engenheiro, mecânico, pesquisador e, em muitos momentos, verdadeiro garimpeiro de peças, uma espécie de “rei do ferro-velho”. Cada componente disponível poderia ser usado e representar uma solução.
A história do DKW-SAM não terminou quando a carroceria ficou pronta. O projeto continuou evoluindo. Na configuração final, o automóvel recebeu um conjunto mecânico mais moderno, com potência praticamente duas vezes superior à do motor original.
Também foram incorporados componentes provenientes de um Saab 96, incluindo elementos da suspensão dianteira, sistema de freios e rodas. A escolha do Saab é especialmente interessante. A marca sueca tinha uma relação histórica muito forte com a engenharia aeronáutica, setor em que continua oprando até hoje. Assim, mesmo décadas depois do início do projeto, o DKW-SAM continuava reunindo componentes de uma tradicional indústria automotiva que também possuía forte DNA de aviação.
Era quase como se o automóvel tivesse encontrado, dentro da indústria automotiva, um parceiro natural para a aplicação de sua filosofia. O Saab 96 era um automóvel tecnicamente peculiar. A Saab nasceu diretamente ligada à indústria aeronáutica sueca, e seus automóveis tradicionalmente carregavam características de projeto influenciadas pela experiência da empresa com aviões.
Portanto, a utilização de componentes do Saab no DKW-SAM não é apenas uma curiosidade. Há uma certa coerência histórica. Okarmus havia criado seu automóvel utilizando justamente técnicas da aviação e, mais tarde, passou a utilizar componentes de um automóvel produzido por uma empresa com fortes raízes aeronáuticas. O DKW-SAM acabou reunindo duas culturas técnicas que normalmente eram separadas.
Observando o DKW-SAM hoje, é possível compreender imediatamente a influência da profissão de seu criador. A frente baixa, a carroceria arredondada, as superfícies contínuas e a preocupação com a penetração aerodinâmica dão ao automóvel uma aparência diferente de praticamente qualquer outro carro produzido na mesma época.
Não é um esportivo tradicional. Também não é exatamente um protótipo de fábrica. É uma interpretação pessoal de como um automóvel poderia ser construído quando o projetista pensasse primeiro como engenheiro aeronáutico e, só depois, como fabricante de automóveis. Esse é talvez seu maior valor histórico.
O DKW-SAM também não deve ser analisado apenas como mais um carro. Ele foi um experimento de engenharia, e sua importância está justamente na liberdade que um projeto artesanal proporciona. Uma montadora precisa pensar em custos, produtividade, segurança industrial, ferramental, fornecedores, manutenção, homologação e produção em milhares ou milhões de unidades.
Okarmus não precisava obedecer a nenhuma dessas limitações na mesma escala. Podia utilizar uma solução apenas porque ela era tecnicamente interessante. Ou podia substituir uma peça, alterar a carroceria, mudar o motor e testar materiais. E foi exatamente isso que aconteceu durante aproximadamente uma década.
O lado negativo de um projeto assim também é evidente. Quanto mais o automóvel evoluía, mais distante ficava de um projeto convencional. Componentes de diferentes veículos eram incorporados, soluções eram modificadas, a carroceria permanecia praticamente artesanal e o projeto crescia organicamente.
Em outras palavras, o DKW-SAM não foi propriamente “fabricado”. Ele foi construído e reconstruído. E essa diferença é fundamental. Um automóvel industrial nasce de desenhos, protótipos, testes e finalmente de uma especificação congelada. Já o DKW-SAM parecia estar sempre em desenvolvimento.
Sua configuração definitiva só surgiria muitos anos depois do início da construção.
Depois da morte de Władysław Okarmus, o automóvel passou para sua filha, Grażyna Okarmus-Gogala. Em 2009, o carro foi adquirido pelo colecionador polonês Jacek Kowalewicz, que realizou seu processo de restauração.
Essa preservação foi particularmente importante porque o DKW-SAM não era apenas um automóvel antigo. Ele documentava uma maneira de pensar e construir carros que praticamente desapareceu. Em 2023, o veículo foi adquirido pelo Museu de Aviação Polonês, em Cracóvia, passando a integrar a coleção da instituição.
É significativo que um automóvel esteja exposto em um museu dedicado à aviação. Nesse caso, porém, a presença do carro não é uma excentricidade, é algo absolutamente justificável. A resposta para isso está na própria estrutura do DKW-SAM.
O carro é um testemunho da transferência de conhecimento entre a aviação e o automóvel. A carroceria de material composto, o uso de duralumínio, a preocupação extrema com o peso, o tratamento aerodinâmico das formas… Tudo isso nasceu de uma experiência profissional adquirida no desenvolvimento de planadores.
O próprio Museu de Aviação Polonês destaca que o carro constitui um exemplo particularmente interessante da utilização de tecnologias aeronáuticas em outra área da engenharia. O DKW-SAM também deixa uma lição interessante para o mundo automotivo contemporâneo.
Hoje, a indústria discute intensamente o uso de materiais compostos, redução de massa, aerodinâmica, eficiência energética e relação peso/potência. Okarmus estava lidando com muitos desses mesmos conceitos décadas atrás.
É claro que os materiais e os processos atuais são incomparavelmente mais avançados, mas o princípio permanece: quanto menor a massa, menor a energia necessária para movimentar o veículo. E quanto melhor a aerodinâmica, menor a potência necessária para vencer a resistência do ar. Em outras palavras, antes de procurar mais cvs, o engenheiro pode procurar menos kgs e menos arrasto aerodinâmico.
Chamar esse carro simplesmente de DKW seria reduzir sua importância. A mecânica inicial era DKW e o chassi vinha de um DKW F8. Mas a carroceria não era DKW, o projeto não era DKW, a filosofia construtiva não era a de uma fábrica de automóveis e a evolução posterior incorporou componentes de diversos fabricantes.
Por isso, o nome DKW-SAM talvez seja mais adequado do que simplesmente DKW. O alemão DKW forneceu o ponto de partida, o prêmio SAM representou a liberdade de construção e Okarmus foi o verdadeiro autor do automóvel. Hoje seria praticamente impossível reproduzir com exatidão a história do DKW-SAM. Não por falta de tecnologia, pelo contrário.
Temos materiais melhores, ferramentas digitais, modelagem tridimensional, impressão 3D, softwares de aerodinâmica, simuladres e processos de fabricação muito mais sofisticados. O que desapareceu foi o contexto. Aquela combinação de escassez, criatividade, necessidade e liberdade permitia que um engenheiro construísse durante anos um automóvel praticamente como um projeto pessoal.
O DKW-SAM nasceu desse ambiente. Por isso, seu valor não está no desempenho absoluto ou na quantidade produzida, muoto menos no luxo. Está na ideia. Władysław Okarmus ficou conhecido principalmente por seu trabalho na aeronáutica e pelos planadores que projetou.
Mas o DKW-SAM mostra outro lado de sua personalidade. O engenheiro que trabalhava com aeronaves também era um apaixonado por automóveis. E, em vez de simplesmente comprar um carro disponível no mercado, decidiu aplicar sua experiência profissional para construir algo próprio.
O resultado demorou anos para ficar pronto; passou por diversas modificações; recebeu componentes de diferentes veículos; mudou de motor, de suspensão, de freios, e sobreviveu. E, mais importante: sobreviveu com sua identidade.
Talvez a melhor maneira de definir o DKW-SAM seja imaginando seu criador diante de duas possibilidades. De um lado, havia o automóvel que ele poderia comprar, desde que conseguisse encontrar um e tivesse dinheiro para isso. Do outro, havia a chance de construir um.
Okarmus escolheu a segunda. Pegou a mecânica de um DKW antigo, aplicou conhecimentos de aeronáutica, moldou uma carroceria de fibra de vidro, utilizou duralumínio para economizar peso e, durante anos, aperfeiçoou sua criação com peças encontradas em outros automóveis.
O resultado não foi perfeito. Nem precisava ou podera ser. Era acima de tudo uma conquista pessoal. E talvez seja justamente isso que torne o DKW-SAM tão fascinante.
Num mundo veículos dominado atualmente por projetos computadorizados, plataformas globais e produção robotizada, ele lembra uma época em que um engenheiro podia olhar para um automóvel, desmontá-lo mentalmente e dizer: “Eu consigo fazer um melhor para mim.”
O DKW-SAM foi o resultado dessa ideia: um pequeno cupê artesanal que transformou escassez em criatividade e engenharia aeronáutica em automóvel. Um carrinho que nasceu no chão de alguma garagem, polonesa, mas carregou consigo, desde o primeiro desenho, a experiência de quem estava acostumado a construir máquinas destinadas a voar.