Leapmotor: a chinesa que quer o Top 10 mundial
Apenas sete anos de existência, já contabilizando lucros e a marca de um milhão de carros por ano anunciada para breve. Esta é a história de sucesso da Leapmotor.

Tudo começou em 2011, com um Renault Twizy rodando por uma rua de Valência, Espanha, que chamou a atenção de Zhu Jiangming, até então fabricante chinês de câmeras de vigilância. Ele ficou impressionado com o modelinho elétrico, tão impactado que levou apenas quatro anos (2019) para fundar a Leapmotor, outros quatro para lançar o primeiro modelo (2023) e, dois anos depois, em 2025, já contabilizava lucros. Espantoso? Sim, com certeza.
por Ricardo Caruso

Esse tempo recorde é um assombro na indústria automotiva global. Não é segredo que lançar um produto num mercado com mais de 1,3 bilhões de potenciais clientes, como acontece na China, facilita o caminho para o sucesso, mas isso não quer dizer que a curta e vitoriosa jornada da Leapmotor tenha sido fácil. Exemplo disso são as dezenas de marcas de automóveis chinesas criadas nos últimos 10 anos que já fecharam portas, devido à pressão sobre os preços e margens de lucro, ambos esmagados, fórmula que promete não desaparecer tão cedo.
Para a Leapmotor o cenário é bem mais favorável. Jiangming conseguiu estruturar uma empresa enxuta, ágil e rápida, com custos ajustados e cadeia de valor absurdamente eficiente e bem controlada (o que é um dos segredos das marcas chinesas), além de uma linha atual de 11 modelos que está conquistando tanto o mercado chinês, como o internacional. A marca já atua no Brasil com absoluta qualidade e preço competitivo.
O criador da Leapmotor teve a visão -e a modéstia- de encontrar um parceiro internacional do tamanho de uma Stellantis, que em 2023 comprou 20% das ações da empresa (por 1,5 bilhões de euros/US$ 1,7 bilhões), criando a partir dessa iniciativa a Leapmotor International (com a Stellantis nesse caso tendo 51% da operação).
Esta parceria permitiu crescer e enxergar longe. aproveitando os canais de distribuição do Grupo, facilitando a expansão internacional de maneira rápida e eficiente. Como resultado, a marca já está presente com distribuição ativa em cerca de 30 mercados europeus e no Brasil.
Por fim, para reforçar a sua posição junto das controladoras autoridades chinesas, Jiangming ligou-se também com o fabricante estatal local FAW no final do ano passado, quando cedeu 5% do seu capital acionista por US$ 577 milhões. Daí em diante o seu plano de expansão na China tem avançado de forma acelerada, dispondo já de mais de 950 pontos de venda, espalhados por 300 cidades.
No ano passado, a Leapmotor vendeu praticamente 600 mil automóveis em nível global —o dobro do ano anterior—, não havendo duvidas sobre seu plano de vender um milhão de automóveis ainda este ano. A longo prazo, as metas são ainda mais surpreendentes e ambiciosas. Em uma década, a empresa espera vender quatro milhões de automóveis por ano e assegurar uma posição confortável no Top 10 de fabricantes de automóveis em nível global.

Se estas previsões se confirmarem —atingindo um crescimento de quase 70% em 2026— a Leapmotor poderá tornar-se a primeira startup chinesa de “Veículos de Novas Energias” (elétricos e híbridos plugin) a ultrapassar esse patamar, apesar de ter apenas cerca de 10 anos de existência.
Mesmo com a aposta nos mercados da Europa, Austrália, Sri Lanka, África do Sul, América do Sul e Marrocos, as vendas da Leapmotor fora da China foram de apenas 67.000 unidades em 2025, e crescer isso é a prioridade de momento.
Na Europa é a quarta marca chinesa mais vendida, atrás da MG, BYD e Chery, mas está há poucos meses do início da produção —em outubro— do SUV B10 na fábrica da Stellantis de Saragoça (Espanha), onde ainda é feito o Opel Corsa. No Brasil, já anunciou a produção dos SUVs B10 e C10, que acontecerá em Goiana (PE).
Mais tarde também será produzido na Europa o B05, modelo familiar compacto concorrente de modelos como o Volkswagen ID.3, Renault Mégane e Kia EV4. É uma forma da Stellantis aproveitar a capacidade de produção instalada e sub-utilizada em vários locais.
O B05 quer fazer incomodar o Volkswagen ID.3 e concorrentes do segmento, como uma wagon elétrica de quatro portas. Tem suspensão traseira independente multibraços, tração traseira e preço que começa nos US$ 31 mil. Preço que é atrativo para o consumidor europeu, mesmo sendo mais do dobro do que custa na China. A título de comparação, basta lembrar que o ID.3 e o Mégane começam em torno dos US$ 44 mil.

Dessa forma será possível à Leapmotor escapar às tarifas protecionistas europeias (10%+20,7% no caso da Leapmotor), dando ao apelo dos preços da marca chinesa ainda mais competitividade, mesmo considerando os custos mais altos de produção na Europa quando comparados com os da China.
No catálogo europeu de ofertas, o pequeno T03 está alcançando bons níveis de vendas, por conta de ser um modelo barato do segmento dos urbanos, sendo até pouco tempo um dos dois elétricos disponível por menos de 20.000 euros (US$ 23 mil) na Europa; o outro era o Dacia Spring/Renault Kwid E-Tech…

Com a chegada do novo Renault Twingo, de uma versão mais em conta do Citroen ë-C3 e, para logo, do Volkswagen ID.1, o cenário muda. O T03 terá de se atualizar ou sair de cena. A romena Dacia vai também lançar um novo elétrico por menos de 20 mil euros/US$ 23 mil com base no Twingo.
Os SUV B10 e C10 também são vendidos no Brasil, ambos com opções elétrica e elétrica com extensor de autonomia (EREV). Trata-se de propostas bastante mais atrativas na Europa em termos de qualidade, mesmo tendo no preço um dos seus principais trunfos, mas ainda longe de dar vantagens para a Leapmotor na comparação com os seus concorrentes. E as próximas chegadas devem aquecer ainda mais a disputa.

O B03X é um pequeno SUV de quatro metros de comprimento, lançado na China no final de março e que estará na Europa ainda este ano. Não irá custar o equivalente a US$ 10,3 mil ou 13,8 mil como no seu mercado doméstico, mas deverá ficar abaixo dos US$ 23 mil.


A gama na China é bem mais completa que a europeia: T03, B05 (Lafa 5, na China), B01, C01, B03X (A10, na China), B10, C10, C11 e C16. Uma linha capaz de cobrir do segmento dos urbanos aos SUVs médios e, no recente Salão de Pequim, mostrou mais duas novidades, apontando para o segmento mais acima, com os D19 e D99. O primeiro é um SUV de grandes dimensões —segmento que está bombando na China—, enquanto o segundo é a primeiro minivan, também de tamanho grande.
